terça-feira, 14 de janeiro de 2020

CARTAS DO TINHOSO – Maldanado propõe um brinde


Em 1959 – quase duas décadas depois de ter publicado as Cartas de um Diabo a seu Aprendiz – o próprio C.S. Lewis retomou o tema acrescentando um novo cenário às Cartas onde o diabo escritor, agora sendo saudado numa Academia de Treinamento de Tentadores, propõe um brinde (e ainda hoje a maioria das edições, inclusive a que li agora, publica em conjunto).
No discurso em que o Maldanado (no original é Screwtape) responde à saudação que lhe é feita e propõe um brinde em retribuição às honrarias, ele faz um breve inventário de suas ações tentadoras no "setor inglês" e se esforça em encorajar os jovens tentadores recém-formados na Academia a seguir carreira.
O ponto inicial está focado na mediocridade do cardápio servido, devido às péssimas qualidades das almas humanas, pois "os grandes (e deliciosos) pecadores são feitos do mesmo material que aqueles fenômenos horríveis, os grandes Santos.  O desaparecimento virtual desse tipo de ingrediente pode significar refeições insípidas para nós".
Mas isso é só o mote para que o brinde se dirija ao que ele realmente quer apontar.  E eu entendo que três citações indicam bem o sentido do discurso.
Um. "Gostaria de fixar a sua atenção no movimento vasto, completo rumo ao descrédito, e, finalmente, à eliminação de todo o tipo de excelência humana – moral, cultural, social ou intelectual".
Aqui o tinhoso aborda o que ele chama de democracia.  Uma democracia doentia lastreada por uma educação pautada pela máxima de que "eu sou tão bom quanto você"; em que todos os indivíduos são finalmente nivelados por baixo, pela mediocridade, pelo que há mais vil e indolente na sociedade.  E uma sociedade com um modelo de democracia assim nunca produzirá nem incentivará o surgimento de seres humanos valorosos e excelentes. Onde todos são "zé-ninguém".
Dois.  "O valor supremo, para nós, de qualquer revolução, guerra ou fome está na angústia individual, na traição, no ódio, na raiva e no desespero que elas são capazes de produzir".
Embora o diabo possa trabalhar para que sociedades e nações se arruínem, o objetivo final será sempre a conquista da alma humana, seu alimento infernal.
E três.  Assim ele conclui seu discurso (penso que a citação vale por si mesma): "tendo dito isso, meus amigos, será péssimo para nós se o que a maioria dos humanos entenderem por religião se esvanecer da Terra, pois ela pode nos enviar pecados realmente deliciosos.  A fina flor do profano só pode crescer na vizinhança íntima do sagrado.  Em nenhum lugar a nossa tentação é tão bem-sucedida quanto precisamente aos pés do altar".

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