terça-feira, 16 de outubro de 2018

A DIDAQUÉ E O CULTO



A Didaqué é um escrito cristão anônimo do final do século I e início do II, composto de 16 pequenos capítulos e que registra os primeiros movimentos de estruturação, de doutrina e de liturgia da igreja logo após a era dos apóstolos. Urbano Zilles na introdução da edição do texto em língua portuguesa terce os seguintes comentários:

A Didaqué (Διδαχή) (Doctrina Apostolorum) é uma pérola preciosa da literatura dos Padres Apostólicos. (...) Trata-se do mais antigo manual de religião da comunidade cristã primeva, que conhecemos até o momento. Durante muitos séculos era desconhecida. (...).
Nota-se logo que as comunidades cristãs ainda não estavam plenamente estruturadas. Os apóstolos e os profetas ocupavam maior destaque que os bispos e os diáconos. A comunidade, não o ministro, administra o batismo. O rito batismal e o rito da celebração eucarística ainda não estão fixados. Enfim, a liturgia, se a compararmos, por exemplo, com as formas apresentadas pelo escritor Justino (morto ca. 165), ainda é pobre e embrionária.

No texto da Didaqué há um capítulo específico contendo instruções sobre o batismo, onde é instruído explicitamente: “batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente” (VII.1).
Também há um capítulo sobre o jejum e a oração onde é repetida quase que literalmente a oração do Pai Nosso (VIII.3 – Mt 6.9-13).
E dois capítulos sobre a celebração do culto terminando com uma fórmula litúrgica para ser repetida no final das celebrações: “Venha tua graça e passe este mundo! Amém. Hosana à casa de Davi. Venha aquele que é santo! Aquele que não é (santo) faça penitência: Maranatá! Amém.” (X.6).
Um outro destaque no texto da Didaqué é o capítulo XIV que trata da santificação do domingo pela celebração cristã. Por se tratar de um texto escrito imediatamente após o período apostólico é significativo ele atestar que a igreja já associava as reuniões regulares no primeiro dia da semana (domino dei) com a celebração de culto.
O dia específico de adoração da igreja primitiva era o domingo por que ele estava associado ao sacrifício e à ressurreição de Cristo. Sendo assim, o dia de adoração dos cristãos deveria sempre evocar o memorial destes eventos com confissão de pecados, e celebração eucarística: “Reuni-vos no dia do Senhor para a fração do pão e agradecei (celebrai a eucaristia), depois de haverdes confessado vossos pecados, para que vosso sacrifício seja puro” (XIV.1).
(Na imagem lá em cima, uma reprodução da última página da Didaqué – fonte: wikipedia.org)

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