terça-feira, 23 de setembro de 2014

Uma Visão dos Salmos de Lamento nas Encruzilhadas Humanas – 1ª parte

Por volta do século X a.C. o império davídico-salomônico construiu em Jerusalém não apenas uma das estruturas arquitetônicas mais belas da história – considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo – mas deu a ela uma vitalidade e visibilidade nunca dantes observada na fé judaica.  O chamado Templo de Salomão, com certeza, foi uma construção imponente nas dimensões e na riqueza e luxo do seu acabamento; mas a grande obra foi certamente a estruturação e organização do culto ali desenvolvida.  A ordem cultual estabelecida em torno da edificação de Jerusalém é a grande contribuição para a liturgia e para teologia no período.
Entre esta estruturação e contribuição, sem dúvida, uma das mais significativas é a formação da tradição do Saltério.  Mais do que um simples livro a compor a tradição canônica dos hebreus, o Livro dos Salmos é um manual de culto, liturgia e devoção que os fiéis judeus reconhecem oriundo da tradição davídica e que foi cultivado como parte importante de vida e fé.  Assim, estudar os Salmos é se debruçar sobre aquilo que foi importante na crença e percepção de vida dos judeus e que foi legado posteriormente aos cristãos, sendo incorporado como uma das riquezas herdadas e transmitidas de geração em geração como instrumento fundamental e central para o culto tanto dos judeus como dos cristãos.
Compreendendo os Salmos como a expressão da fé e da vida de judeus e cristãos, então é certo afirmar que cada um dos diversos aspectos da vida humana deve estar expresso e cantado no Saltério.  E compreendendo também que o texto foi herdado e citado como expressão fiel e atual do texto sagrado então também deve ser certo afirmar que para o ser humano de hoje as palavras expressas nos Salmos ainda lhes servem como expressão de sua voz nas suas manifestações cúlticas.  Assim, temos Salmos de louvor e gratidão, regozijo e júbilo; mas também Salmos de dor e lamento, arrependimento e solidão.
Nesta visão, podemos afirmar que o texto bíblico do Saltério é completo e atual.  Completo porque nenhum dos aspectos da vida humana está ausente na forma canônica recebida do texto e porque geográfica e historicamente todos os homens e mulheres podem se ver, cantar e orar nas palavras dos Salmos bíblicos.  Atual porque a vitalidade que fez surgir os textos ainda se pode perceber nos versos e porque tem e continua tendo respostas às perguntas e inquietações humanas hodiernas, como teve no momento em que foram escritas.  Ou seja, colocar os olhos nos Salmos ainda é hoje a melhor maneira de se chegar a alma humana e observar como ela se manifesta e dialoga culticamente com o seu Deus.
Entre estes temas que sempre estiveram na agenda humana e que hoje ganha espaço significativo e distinto com as mudanças e contradições pontuadas neste início de século – como esteve presente em todo o momento da história humana – é o tema da dor e da adversidade.  A vida humana sempre esteve diante da adversidade e hoje as condições de vida e o estilo dito pós-moderno tem infligido em homens e mulheres situações e condições em que a expectativa por satisfações favoráveis é lhe apresentadas como imperativas o que então gera uma frustração e desgosto bem próprio da vida hodierna.

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