sexta-feira, 25 de setembro de 2020

TEM PÃO NO CÉU?

 


Mexendo em coisas de cozinha, André me veio com essa:

— Tem pão no céu?

E de pronto, sem nenhum tipo reflexão ou análise teológica eu respondi:

— Tem sim. Jesus é o pão da vida.  E ele está no céu!

 

Passou-se algum tempo.  As ideias ficaram lá num canto qualquer da cabeça.  Ocupei-me com outras tarefas.  E agora, retomo as cogitações.

 

Pensando bem: teologia e comida são irmãs.  Talvez até não tenham nascido do mesmo útero, mas com certeza foram embaladas no mesmo colo.

 

Então, e quanto ao pão no céu?  Vamos trabalhar com o conceito para chegar a uma resposta.

 

A Bíblia nunca forneceu uma cartografia precisa do porvir, nem deu detalhes do cardápio que será servido nas bodas do Cordeiro.  Mas é fácil notar que a percepção do paraíso perdido nutriu a idealização do céu e o recheou de ilustrações.  A nostalgia do Éden arquitetou o céu.

O Éden é pura fruição, é a delícia que nos sacia, é o lar que nos acolhe.  O céu é a esperança de sua restauração.  Então aquilo que a queda nos tirou, a graça nos concederá.

E assim os filhos de Israel – que viviam cercados das areias do deserto – descreveram seu paraíso como um jardim.

Se fossem siberianos citariam uma morada quentinha e aconchegante.

Mas a vida não se resume a geografia.  A vida se faz mais que isso.  E o Éden do náufrago é a terra firme, do órfão é o colo materno, do solitário é o abraço fraterno, do faminto é a mesa farta.

Esse vazio imenso que me consome por dentro como uma fome de vida, eu sei que receberei como um banquete eterno.

— Tem pão no céu?

— Sim. E tem mais. No céu tem jardim, tem morada quentinha, tem terra firme, tem colo materno, tem abraço fraterno e tem mesa farta.

 

"Porque ele vai enxugar toda lágrima que ainda molha seu rosto. Daí não haverá mais nem morte, nem choro, nem lamento, nem dor. É que tais coisas ficaram para trás" (Ap 21:4).

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

CAUDILHOS ECLESIÁSTICOS

 


Segundo o dicionário, caudilho é um chefe militar, geralmente de forças irregulares que lhe são fiéis; um chefe político que possui uma força militar própria.

Essa prática política herdada da dominação ibérica se caracterizou por um lado pelo uso da força e violência em defender latifúndios e grupos conservadores, e por outro por sempre se revestir de um discurso populista e paternalista.

Em nossa história latino-americana ela foi quase hegemônica no século XIX vindo depois a perder força ao longo do século seguinte.  Vimos vários caudilhos se sucederem na dominação de nosso povo, desde Manuel Oribe no Uruguai e López de Santa Anna no México, passando por Fulgêncio Batista em Cuba e pelos Duvalier no Haiti.

 

— Aqui mando eu e vocês têm que se curvar à minha vontade.  Eu tenho direitos e vocês obrigações.  Eu cuido de vocês se me forem fiéis!

 

Quando eu olho hoje para algumas igrejas e comunidades de fé tenho visto se repetir esse padrão.  Há caudilhos em nossas instituições religiosas e eclesiásticas. — Aqui mando eu ...

Ressalva importante: não tenho dados estatísticos para atestar minhas observações, mas quero manter a esperança e crença de que os caudilhos eclesiásticos são exceção, embora reconheça que atitudes como essas não são exatamente novidade na história da igreja – infelizmente.

Esse fenômeno, contudo requer análise mais amiúde.  Em linhas gerais vou listar dez atitudes e posturas que caracterizam um caudilho eclesiástico e como identificá-lo.

 

1.      Administra e controla a sua comunidade de fé a partir da imposição do poder das regras religiosas.  Excesso de legalismo e rigidez normativa.  Usa sempre a lei e a sua interpretação ao seu favor.

2.      Apresenta-se com o representante oficial da divindade tendo com isso uma autoridade personalista e individual.  Toda a ligação entre o sagrado e a comunidade tem que passar por seu crivo.

3.      Seu discurso se baseia em ameaças de terror e medo imposto.  As condenações divinas e o castigo são usados como um instrumento controle comunitário.

4.      Mantém uma atitude paternalista, comportando-se como o pai /patriarca na fé que supre as necessidades e tem todas as respostas espirituais do rebanho.  É sempre ele, e somente ele ou seus prepostos, quem cuida e tem o alimento espiritual para a comunidade e quem faz a leitura e interpretação particular da Bíblia.

5.      Estabelece uma rígida hierarquização da comunidade de fiéis, separando-os entre mais e menos santos/espirituais/doutrinados.  Oferece pouco espaço para leigos. Valoriza cargos e títulos, mesmo que espirituais.  Ele mesmo se posiciona em relação a outras lideranças como sendo de uma casta superior.

6.      Ênfase excessiva em números, resultados e performance tanto social, como espiritual e institucional.  Leva a comunidade a se comprometer com seus alvos, metas e projetos e sua visão única da fé e do cristianismo.

7.      Estabelece limites de convívio e contato dos seus fiéis com outros líderes e comunidades cristãs.  É exclusivista.  Não tolera comparações, e nem permite que sua igreja seja vista dentro de um espectro maior e histórico da igreja.

8.      Carismas e manifestações espirituais são mantidos sob controle rígido.  Estimulando ou rechaçando; incentivando ou proibindo de acordo com seus próprios critérios.  Consequente manipulação das bênçãos.

9.      Conservadorismo em assuntos de liturgia e costumes.  Ao estabelecer um padrão de forma de culto, louvor e adoração, esse deve ser repetido e mantido inalterado.  Da mesma forma as regras de costumes, moda, linguajar e relacionamentos.

10.  Não concede nenhum espaço para reflexão ou crítica de nenhuma forma.  Tudo que é dito, pregado ou ensinado deve ser acatado, seguido e defendido sem qualquer tipo análise ou avaliação – nem teológica, nem histórica, nem bíblica.

 

Cada um desses pontos possibilitaria uma desconstrução a partir do longo e rico lastro que o cristianismo nos legou, mas vou apenas ler o nosso texto sagrado, nossa única regra de fé e prática individual e eclesiástica, e a partir da sua ótica estabelecer critérios.

O apóstolo Pedro na sua primeira carta instrui aos presbitérios que pastoreiem e cuidem de seus rebanhos sem ganância, mas com a atitude de serviço.  E nunca ajam como caudilhos daqueles que lhes foram confiados pelo Supremo Pastor (1Pe 5:1-4).

E o Mestre estabeleceu o critério de vivência e relacionamentos na igreja que ele fundou, e o posicionamento a ser esperado de sua liderança: "o padrão entre vocês será o seguinte: mais prestígio terá quem se submeter, e vai liderar quem servir". E o exemplo é o próprio Cristo (Lc 22:26-27).

Que nos dê o Senhor da igreja líderes com espírito servil para a sua glória.

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DEMONSTRANDO PODER

  


Uma maneira de Jesus evidenciar o Reino de Deus foi através de operação de milagres, curas e outras demonstrações públicas de seu poder e autoridade.  Não que com isso Jesus estivesse interessado em transformar seu ministério em espetáculo, mas com a realização de tais atos sobrenaturais, Jesus estaria tanto atendendo as pessoas em suas necessidades quanto atestando sua autoridade.

É interessante, contudo, observar que a cada nova manifestação de poder, as reações eram sempre diferentes.  Embora acompanhadas de temor e admiração.

Note alguns: a) quando acalmou a tempestade, seus discípulos questionaram seu poder (em Lc 8:25); b) quando tratou do endemoniado gadareno, seus conterrâneos pediram que se retirasse (em Lc 8:37); c) quando ressuscitou a filha de Jairo, este ficou maravilhado (em Lc 8:56); d) igualmente os pais do jovem possesso que foi liberto (em Lc 9:43); e e) a multidão ficou saciada depois de se alimentar com os pães e peixes multiplicados (em Lc 9:17).

Ou seja, é impossível ficar indiferente diante da manifestação do poder e autoridade de Jesus e do que ele realiza na vida de seus discípulos.  Alguns sempre perceberão o que Jesus tem realizado e, tomados de temor, o reconhecerão como o verdadeiro Cristo, o filho de Deus; enquanto outros, por causa de igual temor, procurarão fugir e não se comprometer com ele.

(Extraído da Revista “Lucas” – Editora Sabre)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

TABELA DE MEDIDAS BÍBLICAS – Distância e área

Ainda oferecendo recursos para um estudo mais detalhado da Bíblia e do seu contexto, apresento aí uma tabela com as principais medidas de distância e área utilizadas no tempo em que o texto foi escrito.


 

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

LEMBRE-SE ANTES

 

Há certa poesia melancólica no final do livro de Eclesiastes (Qohelet)

Na verdade, todo esse livro do Antigo Testamento destila um sentimento de frustração e nulidade. — "Tudo é vaidade e correr atrás do vento" – esse é o mote que percorre todo esse escrito sapiencial hebreu.

Mas, no final do seu texto, o pregador deixa seu desencanto ser tocado pela beleza do entardecer e faz uma descrição do ocaso da vida, pintando-o com belas cores do poente.

No texto, o convite à alegria da juventude (Ec 11:9) contrapõe-se aos dias nos quais não restam deleites (Ec 12:1).  E segue-se a descrição desses dias, completamente carregada de melancólica poesia:

 

Reavive em sua mente o seu Criador
Enquanto você é jovem.

Antes que cheguem os dias e os anos nos quais venha a confessar
não ter mais com o que se satisfazer.

Antes que a luz do sol se obscureça.
E lua e estrelas sejam encobertas por nuvens,
mesmo depois das primeiras chuvas.

Pois vão chegar dias em que até os guardiões da casa vão tremer
E os varões vão se encurvar.

Dias nos quais os raros moedores cessarão
E pelas turvas janelas já não se verá mais o brilho

Dias quando estarão cerrados os portais externos,
Quando será difícil ouvir o ranger das moendas
E até o assobio dos pássaros parecerá silêncio.

Dias em que qualquer altura o assustará como perigos nas ruas.
Dias em que o gafanhoto será um fardo.

Quando já não se despertar, nem pulsar o desejo.

 

Reavive em sua mente o seu Criador
Enquanto você é jovem.

 

Porque vai chegar o tempo do homem voltar para a casa eterna.
É só restarão dele as lágrimas das carpideiras errantes.

 

Lembre-se daquele que o criou antes que a vida vá se pondo como um entardecer.  Antes que olhos, braços, dentes, ouvidos, passos, e desejos se esvaiam.  Enquanto há alegria e folguedo na vida, lembre-se daquele que te fez brotar em pulsos de vida.

Lembre-se agora.