sexta-feira, 17 de junho de 2016

SOBRE OS ANJOS DA GUARDA – como entender Mateus 18:10?

A pergunta me foi feita: Como entender Mateus 18:10?  Seria o caso de que cada criança tem um anjo particular e que este comparece diante de Deus?

Antes de qualquer análise, deixe-me oferecer uma tradução livre – sem me preocupar com os rigores da técnica lingüística:

Preste atenção: nem [pense] em desprezar sequer um destes pequeninos.  Porque eu digo que os anjos deles nos céus vêem continuadamente a face do meu Pai [que está] nos céus.

Agora, já caminhando rumo à análise preciso destacar algumas expressões que jugo chaves no verso e depois tentar entender o contexto em que Mateus colocou a expressão.  Vamos a elas:
Um. Preste atenção (ὁρᾶτε do verbo ὁράω) – o verbo está no imperativo presente.  O sentido indica: veja ou tenha cuidado com isso!
Dois. Desprezar (καταφρονήσητε do verbo καταφρονέω – esse é um palavrão!!!) – aqui o subjuntivo com negação indica a proibição de sequer iniciar ou cogitar a possibilidade de desconsiderar, tratar com descaso ou menosprezar
Três. Pequeninos (μικρῶν) – literalmente: o adjetivo pequeno; daí ser possível entender como crianças.  Faz mais sentido porém interpretar como se referindo aos discípulos (acho que pupilo seria uma tradução interessante!), principalmente considerando o contexto do verso seis logo acima.  O Sl 17:8 oferece uma leitura poética para a expressão.
Quatro. Anjos deles (ἄγγελοι αὐτῶν) – seriam pessoais!? – surgiu uma crença no período inter-bíblico de que, para cada ser humano, Deus tinha designado um anjo pessoal que o acompanharia desde o nascimento até à morte, mas não há registro específico disto nas paginas sagradas.  Talvez a citação do anjo de Pedro em At 12:15 seja uma referência a esta tradição.  O que temos de mais próximo é a citação de Dn 10:21 e 12:1 em que o anjo Miguel é citado como o príncipe de Israel – mas aqui a ligação é coletiva a toda a nação e não a alguém especificamente.
Ainda neste ponto, o pronome parece realmente indicar um coletivo: os anjos dos pupilos e não os anjos de cada um deles.
Cinco. A face do Pai (τὸ πρόσωπον τοῦ πατρός) – essa é fácil! Junto com a referencia aos céus, indica o lugar do trono onde Deus se coloca para governar o universo.

Está ficando grande, mas peço que me acompanhe mais um pouco.

Quanto ao contexto de Mateus.
O Evangelista começa o capítulo 18 tratando do maior do reino dos céus – tomando uma criança (παιδίον) como exemplo.  Depois fala do cuidado quanto ao fazer tropeçar os pequeninos (μικρῶν); e o verso dez – em destaque – introduz a parábola da ovelha perdida.  O que fica em destaque nestas passagens é cuidado zeloso por aqueles que mais precisam: crianças, pupilos e ovelhas.  Deus se importa que eles.

O que posso entender disso tudo.
Vou começar dando a palavra ao Reverendo Augustus Nicodemus Lopes: A passagem não está ensinando que cada crente ou criança tem seu próprio “anjo da guarda” (...) ela simplesmente expressa o cuidado geral de Deus por seu povo através dos anjos.
Penso que é por aí.  Tirar apenas desse versículo uma compreensão de anjo da guarda particular é desconsiderar todo o contexto bíblico.  Realmente Deus ordena aos seus anjos para velarem pelos seus (veja o Sl 91:11 e Hb 1:14) e em nossas batalhas e lides diárias eles são aliados formidáveis.
Em toda a Bíblia os anjos assistem na sala do trono para o louvar (cito por exemplo o Sl 103:20), servem e obedecem só a ele e são enviados pelo próprio Deus para missões específicas, principalmente quando é preciso agir em favor dos seus pupilos (lembre de Dn 6:22).  Só que não há nenhuma passagem que indique um "casamento" perene entre seres angelicais e humanos.
Bem, o mais importante na passagem de Mt 18:10 é o destaque que Jesus dá ao cuidado com os seus.  Se o Mestre sugere que é melhor arrancar braço, perna ou olho do que fazer tropeçar um dos seus pequeninos; se até os anjos permanecem como tropa militar em prontidão esperando o momento de entrarem em ação para os defender, agora considere o cuidado que devo tomar com eles.


2 comentários: