terça-feira, 21 de junho de 2016

PROTESTANTISMO E CULTURA BRASILEIRA

É sabido por todos que o protestantismo tradicional nunca conseguiu assimilar devidamente uma brasilidade que o tornasse uma religião nacional.  Desde sua chegada, quer como protestantismo de migração quer de missão principalmente, ele chegou como religião estrangeira e passados mais de cem anos mantém-se como se fosse uma cultura de uma minoria que geralmente não convive com a grande cultura popular.
O catolicismo quando chegou ao Brasil trouxe consigo um tradição cristã de certo modo já sedimentada, mas chegou no período de formação da cultura brasileira, e num processo dialético  com os valores afro-indígenas, tornou-se o centro dessa cultura.  Por sua vez o protestantismo ao chegar já encontrou uma cultura formada e de certo modo resistente a intromissão de valores novos como os trazidos por aquele último.  Outro fator que merece destaque é o anti-catolicismo das missões protestantes norte-americanas que repetiram aqui a intolerância da outra América.  Esse anti-catolicismo identificou o catolicismo com o anticristo e causa do atraso dos povos, viu nos valores da cultura brasileira os traços desta identificação; logo sua mensagem seria – e foi – um chamado a abster-se da cultura local e a aceitação inquestionável dos valores da cultura norte-americana trazida pelos missionários.
Com um início desses não é de se estranhar que o movimento protestante no Brasil tenha se mantido afastado de qualquer identificação com a cultura brasileira ao longo de sua existência.  Por conta disso ele subsistiu como cultura de gueto negando-se a dar uma parcela de contribuição à cultura nacional bem como não aceitando que ares dessa cultura adentrem seus muros.  Dessa incapacidade de convivência surge o fato de que para ser um crente fiel protestante é preciso abandonar as coisas do mundo e aceitar as do céu – em outras palavras: esquecer o jeito brasileiro de viver e adotar o american way of life.
Outro aspecto dessa relação entre protestantismo e cultura brasileira pode ser observado por Max Weber quando ressalta a questão do ascetismo protestante e o coloca como o principal formador da visão que esse tem do mundo.  Se Weber estiver certo também em relação ao Brasil então, em observando por este ponto de vista, o protestantismo como um todo tem que ser entendido como algo que em si já está fechado às novidades, pois no seu código implícito de ética está inserido o fato de que a sociedade só progredirá se seus membros, um a um, tomarem uma postura ascética de quase negação da vida e posicionarem-se de modo não-criativo a caminhar, constante e inexoravelmente, rumo ao progresso.  Ora, tal proposta é completamente alheia à mentalidade brasileira.  Logo, aceitá-la implica necessariamente numa negação do caráter espontâneo e criativo da alma brasileira.
Em sua palestra na Conferência do Nordeste em 1962 intitulada “O artista: servo dos que sofrem”, Gilberto Freyre soube ver bem estas questões:

É curioso que até agora o cristianismo evangélico só tenha concorrido salientemente para enriquecer a cultura brasileira com insignes gramáticos (...).  É tempo de o cristianismo brasileiro evangélico ir além e concorrer para esse enriquecimento com um escritor do porte e da fama revolucionária, eu diria também, de Euclides da Cunha; com um poeta da grandeza de Manuel Bandeira; com um compositor que seja outro Villa-Lobos, que componha baquianas brasileiras que sejam a interpretação ao mesmo tempo evangélica e brasileira de Bach.  Também um caricaturista ou teatrólogo revolucionariamente evangélico que pela caricatura ou pelo teatro denuncie os abusos dos ricos que para conservarem um privilégio de classe pretende se fazer passar por defensores ou conservadores de tradições religiosas ou mesmo do que se intitula às vezes, pomposa e hipocritamente, civilização cristã (...).  Acompanharei desde agora com maior simpatia  aquelas suas atividades cristocêntricas que se desenvolvam em benefício do Brasil, e adaptando-se ao Brasil.

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