Quando estudamos sobre a doutrina da eleição e predestinação é
importante antes estabelecer outra doutrina teológica indispensável para a
compreensão do tema: a eternidade de Deus.
O Salmo afirma uma verdade que ecoa desde antes que a própria terra
tivesse sido criada: “de eternidade a eternidade tu és Deus” (Sl 90:2).
Essa é uma verdade fundamental na relação dos atributos que
reconhecemos no nosso Deus: ele não se subordina ao tempo, mas, existindo fora
e acima dele, tudo conhece e tudo domina.
Para tentar explicar essa verdade que, em certa medida, escapa a
capacidade de compreensão da mente humana, Agostinho de Hipona começou
estabelecendo uma definição para o próprio conceito de eternidade. Diz ele: "Na eternidade nada passa, tudo
é presente, ao passo que o tempo nunca é todo presente."
Então, comparando como Deus e os humanos encaram a realidade do
tempo e da eternidade, o teólogo africano considera: "Em Deus não há, como
em nós, a previsão do futuro, a visão do presente e a recordação do passado. É totalmente diferente a sua maneira de
conhecer, ultrapassando, muito acima e de muito longe, os nossos hábitos
mentais."
Por tal afirmação, compreendemos que, por ser eterno em sua
essência divina, Deus nunca está preso à sucessão dos tempos e das eras e que,
sendo assim, o passado, o presente e o futuro como nós vivenciamos, são
superados por uma existência em que toda e cada circunstância é vista e
experimentada por Deus como um eterno agora.
Indo um pouco além nessa compreensão, tendo já afirmado que para
Deus não há sucessão de tempo – logo sem antes ou depois – sendo que ele
divinamente conhece o agora, como conhece o passado e conhece o futuro (e não
há distinções nesses conhecimentos dele), vamos entender que torna-se
impossível afirmar que “antes” que algo ocorresse, Deus o previu ou
pré-determinou.
Se nele não há “antes” nem “depois”, mas existe num eterno agora,
então devemos reconhecer como verdadeiras as palavras de Eusébio de Cesareia
quando afirmou que “o conhecimento prévio dos eventos não é a causa de que
tenham ocorrido. As coisas não ocorrem
[somente] porque Deus sabe. Quando as
coisas estão para ocorrer, Deus o sabe”.
Texto extraído da Revista DIDASKAIA (2023)
– IBODANTAS.
A imagem é uma reprodução da obra “La persistència de la memòria” (1931)
do pintor espanhol Salvador Dali, atualmente exposto no Museu de Arte
Moderna (MoMA) de Nova Iorque
