terça-feira, 6 de junho de 2017

JERUSALÉM DE OURO

No ano de 1967 – ano em que nasci – a compositora judia-israelense Naomi Shemer compôs "Jerusalém de Ouro" (em hebraico: זהב של ירשלים, Yerushalayim Shel Zahav).  Quem a primeiro apresentou ao público foi a até então desconhecida Shuli Nathan no Festival de Música Israelita em 15 de maio do mesmo ano.  E a canção se tornou um marco da música judaica no século XX, uma espécie de segundo hino nacional de Israel.
Falar sobre esta música é sempre um pouco complicado: meus olhos ainda insistem em se deixar molhar ao sabor de sua melodia e letra.  Então, para facilitar as coisas, vou começar falando sobre o contexto onde ela surgiu. Depois volto-me à canção.
O Estado de Israel, como nação moderna, fora criado em maio de 1948 e no ano de 1967 estava envolvido na chamada "Guerra dos Seis Dias" contra uma liga de paises árabes – e que depois, como resultado, daria maior controle de Jerusalém às forças de Israel (mas isso só viria em agosto...). 
Em maio, quando a canção foi escrita, a batalha ainda estava sendo travada e Jerusalém ainda estava sob o domínio da Jordânia.  Então Shemer, que já havia servido nas forças militares de Israel e já era poetisa e compositora reconhecida, escreveu sua declaração de amor à cidade.
Mas, deixe-me voltar à musica porque as lágrimas já estão secando com estas palavras introdutórias e eu ainda quero aproveitar a emoção!
Escrita em tonalidade menor, a melodia é uma canção de ninar – a própria autora confessou a inspiração – que suavemente nos envolve e acolhe como quem apenas suspira enquanto o coração é acalantado pela esperança que insiste em se alimentar, apesar da história e das circunstâncias, mantendo-se em absoluta paz.  E nos faz sentir em casa.
Há também um outro sentimento indisfarçável que a música faz aflorar: paixão.  Não a paixão arrebatadora dos adolescentes de hormônios em polvorosa.  Uma paixão serena, profunda e madura que faz vibrar a linha melódica como se o coração igualmente vibrasse em uma sinfonia: paixão pela cidade santa, paixão pelo lar, paixão pela paz.
E ainda sobre a melodia: na primeira audição, a música foi cantada tendo apenas o violão da própria cantora como acompanhamento, mas sugiro ouvi-la ao som do violino: é indescritível!  Não somente pela indicação da letra em si – ela diz: "Por que não ser eu o violino para todas as suas canções?" – mas também porque penso que nenhum outro instrumento melhor faz soar o que a melodia imprime.  Repito: indescritível!
Há ainda a letra.  Escrita no original em hebraico, ela já foi versada em diversas outras línguas e gravada sucessivas vezes (inclusive em português por gente famosa: é fácil achá-la na internet).  Só que pretendo ser ousado para primeiro comentar na língua original, e assim deixo o significado para depois.
Ou melhor, vamos inverter. Falemos primeiro do significado das palavras cantadas.
A partir de inspirações tiradas do talmude, de poemas clássicos, da tradição popular e de textos bíblicos, a canção fala da tristeza da cidade solitária, do cheiro trazido das montanhas que a cercam e do caminho que leva ao Mar Morto.  Mas não é uma tristeza final, fatal.  É um clamor de esperança, um toque do shofar que chama ao monte do templo, na cidade velha.  Ela canta:
Porém hoje venho cantar para ti
E te elogiar
Eu sou o menor dos teus filhos jovens
E um dos últimos poetas
Teu nome queima os lábios
Como o beijo de um Serafim
Se eu te esquecer Jerusalém
Que é toda de ouro.
Sim, o hebraico.  Para ser honesto, nenhuma versão faz jus às palavras cantadas na língua original.  Mesmo que você não entenda uma só expressão do que é dito naquela língua, a pronúncia naturalmente gutural do hebraico dá um tom mais dramático e sentido à música.  Não precisa compreender seus significados linguísticos para a sentir.  Parece estar rasgando de dentro para fora o coração.  A dor é sincera, é universal, é humana.
Jerusalém é cidade velha que se renova, é a cidade santa, é de ouro.  Ali Davi marcou seu triunfo como rei.  Por ela santos suspiraram.  Outros conspiraram.  Ali a morte foi vencida.  A esperança restaurada.
Na canção de Naomi Shemer, é como se o Salmo 122:7-8 estivesse respondido em cada nota.


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