terça-feira, 12 de junho de 2018

A RENOVAÇÃO ESPIRITUAL EM 1960 – algumas citações


ALGUMAS CITAÇÕES SOBRE AS QUESTÕES DA DOUTRINA DO ESPÍRITO SANTO NA DÉCADA DE 1960 NO BRASIL

O Movimento de Renovação Espiritual ocorreu no Brasil na década de 1960 entre as Igrejas Evangélicas. Na época, várias obras foram escritas, principalmente por aqueles que estavam diretamente interessados em um ou outro lado da questão. Vejamos o que disseram:
Em um texto de 1993, o Pastor Enéas Tognini, tendo antes observado as causas remotas da Renovação de 1960, informa que "Renovação Espiritual nasceu no coração de D. Rosalee [Mills Appleby], do Pastor [José] Rego Nascimento e no meu. Depois, o FOGO, na misericórdia de Deus, se alastrou para outras vidas, para outras igrejas e para outras denominações".
O Pastor Rego do Nascimento assim definiu o movimento de Renovação Espiritual: "Renovação Espiritual é uma mensagem bíblica no poder do Espírito Santo para sacudir as igrejas que existem, mas que dormem embaladas pelo comodismo e pela inatividade". Afinal, "um avivamento genuinamente do Espírito era a aspiração de denominações, de igrejas e de crentes em geral. Os jornais das diversas denominações evangélicas expressaram esse desejo sincero do coração, por meio de artigos, assinados por pastores e líderes evangélicos do Brasil" (citado por E. Tognini no mesmo livro).
Quanto aos pontos teológicos expostos convém frisar de início que, até a década em questão, estes temas são considerados periféricos pelos autores evangélicos; sendo inclusive completamente omissos tanto Confissão de Fé Batista de 1689 quanto no Pacto das Igrejas Batistas. Contudo assim deu parecer a Comissão dos Treze:
"(...)
II) Verificamos que a expressão "batismo no Espírito Santo" nunca foi definida em declarações de fé publicadas pelos batistas através dos séculos e sobre seu significado as opiniões de teólogos e pensadores batistas são divergentes; mas, também, reconhecemos:
1. Que a crença no batismo no Espírito Santo como uma "segunda bênção" ou seja como segunda etapa na vida cristã ou seja ainda como uma nova experiência posterior à conversão não tem sido crença que caracterize os batistas brasileiros.
2. Que a prática do que ainda hoje chamam de "dom de língua" e "dom de curas milagrosas" é igualmente estranha às crenças e práticas características dos batistas brasileiros.
3. Que o consenso geral dos batistas sobre a atuação do Espírito Santo na vida do crente é que ela se faz como um processo em toda a sua vida, processo esse que chamamos de "santificação progressiva", a qual depende da cooperação do próprio crente.
4. Que qualquer experiência emotiva ou sensível de cunho pessoal que algum crente ou grupo de crentes tenha tido e que atribuem ao Espírito Santo, por mais genuína que seja para o indivíduo ou para o grupo, de modo nenhum pode constituir um exemplo ou um padrão a ser imitado por outros crentes, nem tampouco pode constituir base para doutrinamento dos outros ou para campanhas de avivamento".
E mais. A mesma Comissão dos Treze em seu relatório apresentado na 45ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira (Vitória/ES – janeiro de 1963) assim declarou: "Apraz-nos assinalar não haver divergência entre os batistas da Convenção Batista Brasileira nos pontos fundamentais da doutrina do Espírito Santo e que são os que constam da Declaração de Fé das Igrejas Batista do Brasil". E mais adiante: "Que os crentes e igrejas se abstenham de atitudes precipitadas e hostis mesmo quando estejam separados uns dos outros por divergências doutrinárias no tocante à obra do Espírito Santo".
Observando outras possíveis pontos de divergências, vemos que questões litúrgicas influenciaram grandemente no desenrolar dos acontecimentos, já que a Comissão dos Treze observou que nas reuniões promovidas pela Renovação Espiritual "se notam os mesmos erros próprios de reuniões pentecostais, isto é, a confusão no ambiente, a gritaria, os descontroles físicos, e falar línguas e outros excessos de emocionalismo"; embora fosse a opinião dos líderes da Renovação Espiritual que se evitassem "barulho demasiado e inútil" nos trabalhos segundo informa E. Tognini.
Sob o ponto de visto sociológico, embora Tognini afirme que "Renovação Espiritual não é o refúgio para os descontentes, aqueles que por questões políticas em sua igreja, dela se afastaram ou foram afastando-se vêm então se apoiar em Renovação"; o mesmo não tem como negar que houve um "desejo incontido de mandar, de liderar, de fechar nas mãos todo o controle da obra".
Por fim, sob o mesmo ponto de vista, observe-se também que Rubem Alves, comentando sobre a igreja evangélica no final da década de 1950, sublinhou dois pontos: "1) Uma radical rachadura teológica que separou a juventude das lideranças pastorais clássicas. 2) A formação de uma liderança leiga, livre dos controles paroquiais a que se achavam submetidos os pastores. Cada jovem tinha muito pouco a perder, pois não vivia da Igreja e, por isto mesmo, gozava de imensa liberdade".


sexta-feira, 8 de junho de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – conclusão


Ultimamente tenho visto campanhas falando em educação escolar, formação de cidadania, consciência social ou moralidade pública (e o pior é que às vezes até nossas igrejas colocam tais proposições como prioridade em suas agendas!). A verdade é que nada disso transfigurará o Brasil, a menos que comecemos em nossas casas um verdadeiro compromisso e disposição de servir ao Senhor.
E sabe mais? Sem aquilo que nos acostumamos chamar de educação cristã de berço, todo o nosso projeto eclesiástico de educação religiosa está fadado ao fracasso. Somente quando incutirmos em nossas casas, começando pelo compromisso dos líderes, verdadeiros valores espirituais e morais como: amor a Deus e ao próximo, serviço cristão, submissão humilde entre outros é que poderemos almejar por impregnar marcas relevantes em nossa sociedade (já experimentou aplicar instruções como Lc 10:27; Ef 5:21 e Fl 2:3 em sua casa?).
Para o último destaque da fala de Josué, quero mais uma vez me fazer valer da palavra em língua hebraica. O termo ali é servir cuja tradução e implicação mais usual é exatamente descrevendo um ato de render culto (como em Êx 12:25).
Mas penso que não seria de todo uma aberração ao sentido semítico da expressão se a atrelássemos à conotação em língua portuguesa: servir como trabalhar para, ou estar à disposição de. Mediante esta sugestão, então Josué estaria se colocando, junto a sua casa, para trabalhar e se empenhar em favor do Senhor como um servo prestativo e obediente. Ou seja, uma família pronta para o serviço, para entregar seu suor e vontade à inteira vontade de Deus.
Creio que posso entender as palavras do apóstolo Paulo na sua despedida dos líderes de Éfeso na mesma linha (também aqui numa tradução livre): Em minha vida, nada mais importa que me gastar no serviço do Senhor Jesus (leia o discurso em At 20, e o verso em destaque é o 24).
Contudo, quero insistir na compreensão de serviço como culto, celebração e adoração (se não me engano, a língua inglesa costuma empregar o termo assim!). Sendo assim, a escolha feita por Josué diante do povo, naquele dia em Siquém, seria que, começando por ele e abarcando toda a sua casa, ele preferia cultuar ao Senhor.
E aqui entendo esta como uma boa definição de culto em família. Entendendo o culto como um estar na presença do sagrado e dele desfrutar sua companhia, então é correto afirmar que Josué escolheu permanecer na presença do Senhor, tendo-o em sua companhia, como havia sido sua experiência toda a vida. E isso ele queria também para sua família. Era seu compromisso.
Diante de variedade de deuses, entidades e forças cósmicas, Josué decidiu que ele e sua família só se submeteriam em adoração ao Senhor Deus com o qual já tinha experiência. A companhia divina tinha sido certa, constante e soberana ao longo da caminhada.
Josué nascera ainda no Egito, ainda em tempos de escravidão, presenciou o mar aberto para que a libertação acontecesse, peregrinou pelo deserto, espiou a terra e a conquistou, sucedendo a Moisés. Ele sabia que isso era resultado da ação direta do Senhor. Sim, valia continuar servindo em adoração este Deus que nunca faltou em uma só de suas promessas (note a sua convicção em Js 23:14-15).
Foi assim que o grande líder israelita se comprometeu em estabelecer o culto ao Senhor como o único aceitável em sua casa. Nada além disso. Nada aquém disso.
Em conclusão, não posso deixar de considerar que nossas famílias hoje, de modo igual, continuam expostas a uma multiplicidade de deuses antigos e da modernidade, formatos religiosos e de culto, objetos de veneração e preocupação última. Todos eles querendo a primazia de nossa alma. A necessidade de escolha continua então imperiosa a cada um de nós: A quem vocês vão servir? A quem invocarão em adoração? Quem será sua companhia e preocupação última?
Que o próprio Senhor da Igreja nos dê líderes, servos e servas que digam: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor.
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

terça-feira, 5 de junho de 2018

A MISSÃO COMO CELEBRAÇÃO


Conclusão das considerações sobre o livro Compromiso y Misión de Orlando Costas, publicado em 1979.

O último aspecto da missão da igreja é a celebração e neste ponto nossos olhos são postos numa leitura do texto de Apocalipse. Vale ressaltar a princípio que esta leitura não é “um plano do futuro. Nem sequer é um esboço das etapas da história. É mais uma celebração e uma interpretação da fé cristã na encruzilhada da história” (p. 141). Ou seja, segundo Costas, o livro de Apocalipse, ao contrário de outros contemporâneos do mesmo estilo, tem uma visão triunfante do Deus como Senhor da história sobre todos os impérios da terra e por isto pode centralizar sua ótica na celebração de Deus e de suas ações. Apocalipse é um livro que desafia à missão e a celebração da igreja.
Esta celebração é primeiramente contextual, dar-se diante do trono de Deus, onde “não há outro lugar de onde possamos obter uma visão tão ampla e completa das complexidades da história humana” (p. 143). É neste contexto que a igreja pode celebrar a vitória triunfal de Deus. Mas a celebração é também comunitária: além dos personagens celestes, “toda raça, língua, povo e nação” (Ap. 5:9) está diante do trono unindo-se na celebração.
Finalmente a celebração deve ser encarada como parte significativa do compromisso e da missão da igreja porque: Deus tem o controle da história; a missão é um processo global e dinâmico; o culto está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a conversão das nações ao Deus trino e uno e o Deus que o Senhor da história é o Deus da cruz.
Costas conclui:
A missão é portanto uma causa para celebração. Em vista do que se trata, devemos celebrá-la com humildade, com gratidão e com confiança (p. 153).
Numa visão geral a obra de Orlando Costas é singular por abordar a missão da igreja sob uma ótica protestante latino-americana; bibliografia tão carente entre nós. Mas também seu valor recai em ser uma obra objetiva, direta, contudo profundamente teológica e prática, como se requer da reflexão cristã. O texto mostra-se bem circunscrito dentro do ambiente cristão que o fez nascer e alimentou sua reflexão e, talvez por isto mesmo, serve perfeitamente como instrumento fomentador do fazer teológico. Contudo vale lembrar que o universo cristão latino-americano não é, em hipótese alguma, um universo uniforme, logo esta variedade não pode ser representada de maneira unívoca em qualquer obra; mas a obra de Costas também mantém este mérito de mesmo focando seus olhos no seu ambiente próprio, propõe uma missiologia que pode ser lida e reinterpretada em qualquer ponto onde o cristianismo se faça presente – mesmo nos rincões distintos da América Latina.
Há um aspecto porém que poderia ser acrescentado. Enquanto que no primeiro capítulo o texto procurou abrir a discussão com uma visão histórica da missão na América Latina – e o faz acertadamente – a conclusão poderia acrescentar uma observação sobre como a igreja hoje tem encarado os diversos aspectos da missão e seu compromisso em relação a cada um deles, propondo alternativas para que a igreja se mantenha centralizada na sua missão.
A pergunta seria: tem a igreja hoje na América Latina comprido fielmente com o compromisso da missão diante deste mundo de incerteza em que vivemos? Parece-nos que embora haja pontos de acertos na vida da igreja, hoje a igreja latino-americana ainda precisa enfatizar alguns aspectos da missão. Quanto a isto só nos resta acreditar que também em relação ao cumprimento da missão cristã em terras latino-americanas: “porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fl 2:13).


terça-feira, 29 de maio de 2018

CineOrquestra


Na última quinta-feira voltei ao teatro para acompanhar mais uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Sergipe, mesmo com protestos e greves, deu para chegar cedo e conseguir um bom lugar para sentar: boa visão e boa audição garantidas, foi só esperar começar a música.
E frise-se, o Teatro Tobias Barreto estava lotado. Inclusive com a presença de muita gente nova que foi assistir a orquestra pela primeira vez – é claro que o repertório da noite ajudava: Trilhas de grandes filmes de Hollywood – excelente proposta!
Com o programa na mão – aquela folha de papel com letras pequenas num papel escuro onde pouco ou quase nada se consegue enxergar e ler, no teatro devidamente escurecido para privilegiar o palco!
Então, com o programa na mão, chega o momento de curtir o som! – não sei se esta expressão se coaduna com a circunstância, mas vai lá…
Iniciada a apresentação, já com a presença dos músicos no palco, o maestro Guilherme Mannis, que dirigiu a noite, deu as boas vindas, fez os agradecimentos de praxe e comentou rapidamente o repertório daquela noite. Assim, ouvimos:

  • Jaws suíte, do filme “Tubarão” – de John Williams. Um clássico eterno. Uma escolha acertada para iniciar a noite.
  • Também de John Williams: Jurassic Park’s theme. A melodia facilmente ajuda a começar a trazer imagens de cinema à mente – A noite promete!
  • De Bernhard Herrmann: Psycho suíte, do filme “Psicose”. Mesmo quem nunca assistiu a obra de Alfred Hitchcock consegue sentir o pavor provocado pelas cordas da orquestra.
  • Voltando a John Williams: Superman March, do filme “Super homem”. O comentário ouvido foi que até dava sentir Clark Kent chegando à Fortaleza da Solidão.
  • E mais: Raider March, do filme “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida”. As aventuras do arqueólogo aventureiro são inesquecíveis.

(Um intervalo – até para os músicos tomarem fôlego pois as peças até aqui exigem muito deles)
Segue o concerto:

  • Do compositor italiano Ennio Morricone: The Ecstasy of Gold, do filme “Três homens em conflito”. Não conhecia o filme, nem tinha referências. Mas a música me reportou na hora a um bom faroeste. E veja que a primeira coisa que aparece pesquisando no Google é Clint Eastwood!
  • Voltando a John Williams, Star Wars – Marcha imperial e Sala do Trono. Peça indispensável com direito até a sabre de luz no lugar da batuta do maestro.
  • Mais: Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, suíte. Confesso que aqui eu me perdi um pouco durante a execução da música. Também essa franquia nunca foi muito do meu agrado.
  • E para terminar. De Kaus Badelt: Piratas do Caribe medley, do filme “A maldição do Pérola Negra”. É como se estivesse embarcando e navegando sob o comando do pirata Jack Sparrow.
  • Com direto ao bis: Aqui sem maiores dados, o tema do novíssimo Vingadores. Meu filho ao meu lado abriu um sorriso indisfarçável!

Mas é mais que isso: é música!
Sem mixagem, sem edição. Não eram efeitos sonoros ou tema subliminar. A música está ali acontecendo. É por isso – também – que gosto de ir ver a Orquestra ao vivo: a música, o som, a arte está ali. E não há tecnologia que substitua a alma do artista.
E deu até para entrar na música por ela mesma. Claro que num repertório como o CineOrquestra as sensações, lembranças e referências são tomadas pelo turbilhão de imagens que pipocam na cabeça com a evocação dos respectivos filmes. É inevitável não se deixar levar por Indiana Jones fugindo dos nazistas ou não embarcar no Pérola Negra – e isso é muito bom!
Mas repito: é mais que isso, é música! E foi possível um pouco mais que lembranças de películas.
Foi bom ouvir a música como arte singular. E até perceber detalhes e nuances das próprias músicas que certamente passaram despercebidos enquanto o foco ficava no enredo dos filmes – naturalmente.
Valeu a noite no teatro.
Parabéns Orquestra Sinfônica de Sergipe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 2ª parte


Continuemos com a análise. Agora nos detendo mais na expressão de Josué. Tive o cuidado de observar o texto em hebraico que tenho em mãos e me chamou a atenção o uso enfático do pronome de primeira pessoa: EU. Seja qual for o encaminhamento que se dê à sentença, tudo começa com a determinação do sujeito.
Pois bem, seguindo na linha de interpretação que temos adotado, Josué fez uma escolha. Diante das opções que se lhe descortinavam e baseado nas ações de Deus na história, o líder tomou a iniciativa, foi em frente e assumiu os encargos da decisão: sou eu, eu mesmo, e não outro. Isto é autoridade moral.
Somente quem tem tal autoridade empenhada pelo exemplo e credibilidade costurada pela caminhada pode se colocar na posição de protagonista da história familiar e se postar como padrão e modelo (entendo que as palavras de Paulo em Fl 3:17 podem ser lidas também nesta mesma linha de raciocínio).
Josué definiu sua escolha a partir de si mesmo. Isto colocou sobre seus ombros as responsabilidades da decisão. Como chefe de sua casa, ele não esperou que ninguém mais a conduzisse no serviço ao Senhor. Nem ficou apenas esperando que tal bênção lhe fosse atribuída como por encanto.
A lição de Josué que a mim fica demonstrada nesta disposição em primeira pessoa é que, se anseio e tenho o sonho de ver toda a minha casa rendida aos pés divinos, eu preciso pessoalmente tomar o encargo de assim conduzi-la. E tem mais. Só posso cobrar dos meus submissão e serviço ao Senhor se tal atitude já for padrão incontestável em minha vida.
Penso que o problema de viver tomando posse de promessas e declarações de bênção apenas é se eximir da responsabilidade. É mais cômodo esperar que seja feito que se dispor a fazer! Parece-me que ainda é indispensável a esta atual geração de líderes e crentes reassumir pessoalmente o papel de liderança moral diante de nossas famílias para que elas sejam colocadas no altar.
E então, o que começou comigo, chega a minha casa. Não deixa de ser curioso que, naquele momento de encruzilhada na história da nação de Israel, Josué tenha colocado como alicerce de sua escolha a sua família, não uma coletividade maior, e nem sequer mesmo a própria nação.
Fica difícil determinar se ele fez tal implicação propositadamente ou não. Mas também não vem ao caso aqui. A lição bíblica é esta. Ao colocar sua casa como seu foco de escolha ele deixou um inestimável ensinamento: somente com famílias servindo ao Senhor teremos um povo encaminhado na trilha correta.
Poderíamos dizer que Josué citou sua casa porque é sobre quem teria autoridade. Não me parecer ser o caso. Ele chefiava Israel e poderia impor o culto ao Senhor e a exclusão dos deuses antigos e locais. Porém, como já apontamos lá em cima, esta não seria uma decisão a se impor, mas uma escolha a ser feita consciente e responsavelmente. E começaria pela própria casa do líder, como padrão e modelo.
Como efeito de círculos concêntricos, a escolha que começou com Josué deveria ser padrão para sua casa para, só então, influenciar a sociedade e a nação.
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

terça-feira, 22 de maio de 2018

Em Espírito e em fogo



Realmente o texto citado está em Mt 3:11 –

Eu vos batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.
(aqui na versão da NVI – os versos 11 e 12 para dar mais sentido à citação).

As citações paralelas são:
+ Mc 1:8 – “...batizará com o Espírito Santo.
+ Lc 3:16 – “... batizará com Espírito Santo e com fogo.
+ Jo 1:33 – “... o que batiza com o Espírito Santo.

Esse é um riquíssimo texto onde João, o Batista apresenta Jesus e compara seu ministério com o dele, reconhecendo a limitação histórico-temporal e espiritual do primeiro em relação segundo que estava por se iniciar. Vários elementos estão presentes nesta declaração e que podem – e devem – embasar aspectos importantes de nossa doutrina quanto à pessoa de Cristo, a nossa salvação, vivência espiritual-cristã e compreensão de igreja.
Mas vamos focar no tema do fogo – esta é a questão aqui.

Alguns detalhes da citação em grego para ajudar na compreensão do autor original:
αὐτὸς ὑμᾶς βαπτίσει ἐν πνεύματι ἁγίῳ καὶ πυρί·

Vamos lá:
=> A primeira coisa que me chama a atenção é jogo de preposições: o batismo de João é com (ἐνem) água, para (εἰς – no começo do versículo) arrependimento. A água é o instrumento; o arrependimento, o propósito. A água, a forma exterior; o arrependimento, a manifestação interior. Aqui a Chave Linguística propõe: “...tendo em vista...”.
=> O batismo de Jesus vai além. Ele é com (em) Espírito Santo e fogo: este é o veículo/instrumento da obra que Jesus faz. O propósito é limpar completamente a eira (continuação da frase no verso 12).

Quanto ao fogo em si. Acompanhe mais um pouco passeando pela Bíblia.

No AT, a presença do fogo, de maneira recorrente, representa a própria manifestação divina (veja por exemplo Êx 3:2 ou Nm 9:15). Também o fogo representa a ação de justiça, purificação e santificação do próprio Deus (lembre o Sl 21:9 e Êx 24:17; Is 30:27-30 e no NT Hb 12:29).
Há ainda a referência a Pentecoste (em At 2:1-4), mas creio que aqui a referência só seria indireta. Prefiro continuar com a compreensão da ação de Cristo – e do Espírito Santo – na vida do crente como presença purificadora.
É bom acrescentar aqui a Parábola do Trigo e do Joio em Mt 13:24-30 onde Jesus conclui destinando o joio imprestável ao fogo.
Outro texto interessante é a vocação de Isaías (Is 6:1-8). A visão da presença do Senhor é acompanhada de serafins (figuras flamejantes) e a casa se enche de fumaça. Contudo isso não é apenas um espetáculo (ainda que espiritual!). A presença real (batismo) de Deus exige santificação. No caso do profeta, o problema foi resolvido com a brasa viva que lhe tocou os lábios.
Ou seja, o fogo é a ação de Deus em nos limpar, purificar e capacitar para estar em sua presença.
A ilustração do fogo é ainda abundante na Bíblia: do fogo que consumiu Sodoma e Gomorra em Gn 19:24-25 ao fogo que destroi o diabo e seus assecla em Ap 20:9-10.

João entendeu seu batismo em água como um chamado ao arrependimento – um começo de experiência espiritual. O arrependimento nos alerta e traz de volta à presença sagrada. Mas somente Cristo quando opera em nós através do Espírito Santo pode consumir nosso pecado com seu fogo sagrado.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

EU VOS BATIZO EM ÁGUA


Vamos pensar um pouco sobre a cerimônia cristã do Batismo. Assim como a Ceia do Senhor, além de ser o cumprimento da instrução cristã, a cerimônia de Batismo é repleta de simbolismos e significados (e eu até creio que é por isso mesmo que elas são tão belas e importantes!).
No Batismo, da forma em que o celebramos, há todo o ritual de mergulho e saída da água que nos aponta para a morte e a ressurreição que, pela fé, já aconteceram em Cristo Jesus (bem explanado por Paulo em Cl 2:12) – além de ser um testemunho e proclamação da mesma fé.
Mas a água, instrumento ou veículo pelo qual o batismo acontece, pode ainda nos fornecer outras referências que enriquecem ainda mais o ato.
Água sempre nos lembra limpeza. Ao oficiar o Batismo como um banho ritual, posso também está demonstrando que minha vida já foi lavada e purificada. Sei que é o sangue de Cristo quem faz isso acontecer (veja tanto 1Jo 1:7 quanto a descrição da multidão em Ap 7:14), mas com certeza na água do batismo estou exteriormente demonstrando de forma simbólica aquilo que Jesus já fez no meu interior.
Com certeza devo também me lembrar que água é sinal de refrigério, alívio – principalmente tendo em mente o sol do sertão nordestino. Estando dentro da água, ao celebrar o Batismo, sou levado a bendizer o Senhor porque assim como no calor o corpo exterior se sente revigorado pela água, o meu homem interior se refaz com ânimo pelo bálsamo que Cristo traz. E nenhum texto diz isso de maneira mais poética que o Salmo do pastor: o Senhor, que é meu pastor, me conduz a águas tranquilas e me restaura o vigor (sei que todos conhecem o Sl 23, aqui citados os versos 1 a 3).
E ainda a água é indispensável como provisão. Sem água o corpo humano definha e morre. No Batismo em água sou confrontado com a Água Viva que dessedenta toda a sede espiritual. No cerimonial cristão tenho apenas o símbolo, mas ele poderá me reavivar na memória a alegria de já ter bebido da água que mata a sede eterna de minha alma (veja como Jesus usa esta figura com a mulher samaritana em Jo 4:13-14).
João, o batista anunciou o seu batismo em água como um sinal de arrependimento (leia em Mt 3:11). Hoje deve a igreja seguir seu modelo na certeza de que os símbolos da celebração testemunharão a minha fé já com a alma lavada, refrigerada e saciada. E assim cumpriremos a ordem deixada por Cristo para a glória dele.
(A partir de um post no sítio ibsolonascente.blogspot.com em 26 de março de 2010)