O que é, então, um ser humano?
É o ser que sempre decide o que ele é.
É o ser que inventou as câmaras de gás;
mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás,
ereto, com uma oração nos lábios.
(Viktor E. Frankl)
Em
minha formação acadêmica-teológica cruzei com citações de Viktor Frankl algumas
vezes. Mesmo não sendo o foco principal
de meus estudos, mas lembro-me de tê-lo como referência de vários mestres que
me influenciaram nessa jornada.
Porém,
vou confessar: nunca tinha lido nenhuma obra sua diretamente - apenas por
citações indiretas. Essa era uma lacuna
que precisava ser sanada.
— Ninguém
que queira conhecer a alma humana pode desconhecer Frankl (se não foram
essas as palavras literais do meu mestre de Aconselhamento Pastoral, pelo
menos, com certeza, esse era o sentido).
Então,
aproveitei que "Em busca de Sentido" (Editora Vozes. 2023) chegou às minhas mãos para suprir essa
carência.
O livro,
em sua primeira parte – maior e, para mim, mais densa e significativa – "é
a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um de seus
sobreviventes".
Mas
não é só uma biografia. Ele faz uma
verdadeira dissecação da alma humana (vira às avessas!).
E o
faz sem uma atitude piegas ou autoindulgente.
Ele não procura culpados ou responsáveis (embora reconheça que os
tenha).
A
mente aguçada dele colhe significados e entendimento onde outros apenas
narrariam sequência de fatos.
A
abordagem consegue vislumbrar a essência humana além de papéis sociais
distintos, circunstâncias favoráveis ou adversas, condições físicas extremas ou
estados psíquicos distintos. Afinal, "a
vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais
miseráveis".
Assim
é que Frankl não apenas descreve o que é o ser humano, ele vai em busca da
essência, daquilo que nos humaniza. Não
é a vida pela vida, mas a questão do que faz a vida valer ser vivida, o que lhe
dar sentido.
E aqui
está exatamente o ponto chave, a essência e diferencial para o autor vienense:
quaisquer que sejam as condições e realidades, o que faz do ser humano um
humano é a sua liberdade de decisão e capacidade de encontrar sentido em sua
existência. "A liberdade espiritual
do ser humano, a qual não se pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro,
configurar sua vida de modo que tenha sentido".
— Ou
seja, é achando sentido para a vida que a vida faz sentido (esse trocadilho
é meu, mas eu penso que ressoa o pensamento do psicoterapeuta austríaco).
Agora,
seu argumento explode em significado e relevância quando eu lembro que ele foi
capaz de manter tal compreensão, a despeito de estar prisioneiro em Auschwitz, e,
ainda assim, sair de lá e se tornar a referência para a “Terceira Escola
Vienense de Psicoterapia” (as anteriores são Freud e Adler).
Mas,
como disse lá no início, psicoterapia não é o foco dos meus estudos, então vou
fazer apenas mais três citações de Frankl antes de encerrar essa resenha:
→ "Enquanto
ainda esperamos pelo chuveiro, experimentamos integralmente a nudez: agora nada
mais temos senão nosso corpo nu (sem os cabelos). Nada possuímos a não ser, literalmente, nossa
existência nua e crua."
Mais
do que narrar a vergonha ou o nojo de estar despido diante de estranhos, o
corpo exposto ofereceu-lhe a oportunidade de reflexão sobre uma humanidade cuja
existência pode ser vista e vivida até naquele terror.
→
"O
sol que está nascendo. Um pensamento me
sacode. É a primeira vez na vida que experimento
a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da
sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa
forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. Compreendo agora o sentido das coisas últimas
e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – e em fé humana: a
redenção pelo amor e no amor!"
Beleza,
verdade, poesia e amor são parte essencial da existência – e o que também nos
dá sentido. E nada pode nos tirar isso.
→
"Uma
vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não (...) uma
vida dessas não valeria a pena ser vivida."
E,
ainda que eu ande por vales de sombras e morte ... eu prossigo para o alvo, em
direção ao sentido de minha existência, lá, vislumbrando o autor e consumador
de minha fé.
