terça-feira, 6 de outubro de 2026

EM BUSCA DE SENTIDO – Viktor E. Frankl

 


O que é, então, um ser humano?
É o ser que sempre decide o que ele é. 
É o ser que inventou as câmaras de gás;
mas é também aquele ser que entrou nas câmaras de gás,
ereto, com uma oração nos lábios. 
(Viktor E.  Frankl)

 

Em minha formação acadêmica-teológica cruzei com citações de Viktor Frankl algumas vezes.  Mesmo não sendo o foco principal de meus estudos, mas lembro-me de tê-lo como referência de vários mestres que me influenciaram nessa jornada.

 

Porém, vou confessar: nunca tinha lido nenhuma obra sua diretamente - apenas por citações indiretas.  Essa era uma lacuna que precisava ser sanada.

 

— Ninguém que queira conhecer a alma humana pode desconhecer Frankl (se não foram essas as palavras literais do meu mestre de Aconselhamento Pastoral, pelo menos, com certeza, esse era o sentido).

 

Então, aproveitei que "Em busca de Sentido" (Editora Vozes.  2023) chegou às minhas mãos para suprir essa carência.

 

O livro, em sua primeira parte – maior e, para mim, mais densa e significativa – "é a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um de seus sobreviventes".

Mas não é só uma biografia.  Ele faz uma verdadeira dissecação da alma humana (vira às avessas!).

E o faz sem uma atitude piegas ou autoindulgente.  Ele não procura culpados ou responsáveis (embora reconheça que os tenha).

A mente aguçada dele colhe significados e entendimento onde outros apenas narrariam sequência de fatos.

 

A abordagem consegue vislumbrar a essência humana além de papéis sociais distintos, circunstâncias favoráveis ou adversas, condições físicas extremas ou estados psíquicos distintos.  Afinal, "a vida tem um sentido potencial sob quaisquer circunstâncias, mesmo as mais miseráveis".

 

Assim é que Frankl não apenas descreve o que é o ser humano, ele vai em busca da essência, daquilo que nos humaniza.  Não é a vida pela vida, mas a questão do que faz a vida valer ser vivida, o que lhe dar sentido.

 

E aqui está exatamente o ponto chave, a essência e diferencial para o autor vienense: quaisquer que sejam as condições e realidades, o que faz do ser humano um humano é a sua liberdade de decisão e capacidade de encontrar sentido em sua existência.  "A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido".

 

— Ou seja, é achando sentido para a vida que a vida faz sentido (esse trocadilho é meu, mas eu penso que ressoa o pensamento do psicoterapeuta austríaco).

 

Agora, seu argumento explode em significado e relevância quando eu lembro que ele foi capaz de manter tal compreensão, a despeito de estar prisioneiro em Auschwitz, e, ainda assim, sair de lá e se tornar a referência para a “Terceira Escola Vienense de Psicoterapia” (as anteriores são Freud e Adler).

 

Mas, como disse lá no início, psicoterapia não é o foco dos meus estudos, então vou fazer apenas mais três citações de Frankl antes de encerrar essa resenha:

 

→ "Enquanto ainda esperamos pelo chuveiro, experimentamos integralmente a nudez: agora nada mais temos senão nosso corpo nu (sem os cabelos).  Nada possuímos a não ser, literalmente, nossa existência nua e crua."

Mais do que narrar a vergonha ou o nojo de estar despido diante de estranhos, o corpo exposto ofereceu-lhe a oportunidade de reflexão sobre uma humanidade cuja existência pode ser vista e vivida até naquele terror.

 

→ "O sol que está nascendo.  Um pensamento me sacode.  É a primeira vez na vida que experimento a verdade daquilo que tantos pensadores ressaltaram como a quintessência da sabedoria, por tantos poetas cantada: a verdade de que o amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana.  Compreendo agora o sentido das coisas últimas e extremas que podem ser expressas em pensamento, poesia – e em fé humana: a redenção pelo amor e no amor!"

Beleza, verdade, poesia e amor são parte essencial da existência – e o que também nos dá sentido.  E nada pode nos tirar isso.

 

→ "Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não (...) uma vida dessas não valeria a pena ser vivida."

E, ainda que eu ande por vales de sombras e morte ... eu prossigo para o alvo, em direção ao sentido de minha existência, lá, vislumbrando o autor e consumador de minha fé.

 

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