O
livro de Gênesis narra que o Altíssimo se encheu de grande indignação contra as
cidades de Sodoma e Gomorra porque o pecado delas era grande e muito grave, mas
que decidiu primeiramente investigar para saber a extensão dos pecados, antes
de impor seu veredito (cf. Gn 18.20-21).
A
narrativa continua apresentando dois visitantes que, depois de terem sido
recebidos por Abraão, vão até Sodoma, ficam hospedados com Ló, constatam os
pecados sociais do povo e ordenam a Ló e aos seus para saírem da cidade pois o
Altíssimo os tinha enviado para destruir aquele lugar (cf. Gn 19.13).
O
texto bíblico vinha antecipando a percepção dos pecados de Sodoma sempre de
maneira genérica (já em Gn 13.1). Mas
agora com a presença dos mensageiros divinos dentro da cidade, tais pecados
ficaram evidentes.
Para
entender melhor o contexto e como o próprio texto apresenta a infâmia dos
sodomitas, vamos voltar um pouco. A
visita dos mensageiros ao patriarca Abraão, um pouco antes, nos ajuda nisso.
Na
hora mais quente do dia, Abraão recebeu os visitantes, repetiu todos os
protocolos de hospitalidade esperados, dando estadia, trazendo água para lavar
os pés e servindo boa comida (cf. Gn 18.1-5).
Importante
destacar que essa atitude chamou a atenção de Deus à ponto de ELE refazer sua
promessa/bênção a Abraão e lhe oferecer intimidade (cf. Gn 18.17-19).
Com os
habitantes de Sodoma as posturas são completamente diferentes. Embora Ló também tenha oferecido
hospitalidade, os sodomitas quebraram todo o protocolo vital na cultura e
convivência, e o pecado sexual aqui é apenas mais um ingrediente no grosso de
ofensas cometidas por aquele povo.
E a
ideia geral de Sodoma como a encarnação do mal ficou impregnada na memória
espiritual do povo. Em Deuteronômio, o
exemplo dos pecados contra estrangeiros é lembrado como advertência na releitura
da aliança (cf. Dt 29.22-23).
Já na
Lei levítica dada por Deus a Israel está explícito que todo estrangeiro deve
ser bem tratado e amado. Isso é Lei perpétua
que interessa diretamente ao Altíssimo, na mesma medida que o temor ao Senhor
(cf. Lv 19.32-34).
Compreendo
que o pecado principal de Sodoma pesou aqui!
Chegando
aos profetas clássicos de Israel, eles retomaram constantemente o tema: Isaias
e Jeremias comparam a destruição da Babilônia à de Sodoma (em Is 13.19 e Jr
50.40). Ainda o profeta Amós compara a
injustiça social e a opressão dos pobres em Israel aos pecados de Sodoma e
afirma que a nação terá o mesmo fim (cf. Am 4.1 e 11).
Será o
profeta Ezequiel, contudo, aquele que vai apresentar de forma mais direta os
pecados e abominações de Sodoma e suas consequências.
Entre
os vários exemplos e ilustrações proféticas para descrever os pecados de Jerusalém,
Ezequiel conta a parábola das irmãs (Samaria, a
irmã mais velha, Sodoma, a mais nova e Jerusalém que as superou em
pecados). Comparando a cidade com uma
mulher que foi acolhida em seu nascimento, foi amada e adornada, mas que enveredou
pela prostituição espiritual entregando-se à adoração de vários deuses, o
profeta apresentou a indignação do Senhor com os pecados de Judá (cf. Ez
16.17).
Preste atenção. Essa é
a iniquidade de Sodoma, sua irmã: orgulho, desperdício de comida e preguiça,
enquanto os pobres e necessitados não têm nada.
Ela era arrogante e cometia abominações diante de mim.
E, como vocês viram, eu a exterminei.
(Ez
16.49-50)
Na
comparação profética, Jerusalém é descrita como pior que Sodoma. E Deus o faz depois de listar os pecados
cometidos (cf. Ez 16.51).
O que
mais se destaca no texto e no contexto, é que Deus está a ponto de destruir
Jerusalém e o motivo principal é o duplo pecado nacional:
(1) Adultério
espiritual. Ir em adoração atrás de
outros deuses ofende profundamente o Deus zeloso da aliança. A declaração primária da aliança de Deus com
o povo é: “ouça Israel o Senhor é o Único”.
Na declaração de fé fundamental não há espaço para outra divindade (cf.
Dt 6.4 – e Jesus assentiu em Mc 12.29-30).
(2) Falta
de acolhimento e atenção com o pobre, oprimido e estrangeiro. Para o Deus Eterno da aliança, pecar contra o
necessitado é tão repugnante quanto desprezar o próprio Deus (cf. Dt 10.19 –
também, na sequência, o mandamento citado por Jesus em Mc 12.31).
Assim,
a leitura bíblica me leva necessariamente à compreensão de que o verdadeiro
pecado sodomita está ligado a falta de hospitalidade, compaixão e acolhimento
ao peregrino, necessitado e pobre, pois isso sim ofende o Criador (cf. Pv
17.5), muito mais que intercursos sexuais, por mais desviantes que sejam.
Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA,
acesse os links do Escrevinhando:
→ Palavras Bíblicas – link
→ História das Palavras – link
Abraão e os Três Anjos (em espanhol: Abraham y los tres Ángeles)
é uma pintura do pintor barroco espanhol Bartolomé Esteban Murillo,
criada na
segunda metade do século XVII.
Está na coleção da Galeria Nacional de Arte em Ottawa.
