terça-feira, 22 de janeiro de 2019

ABANDONADOS! – contextualizando o Salmo 37:25


Esse é um daqueles textos interessantes – isso mesmo: causa bastante interesse. Suas colocações são pertinazes e andei trabalhando um pouco com o texto. Vamos ver o que podemos aprender.

1. Acho que o verso que você quis citar é o 25. “… nunca vi o justo desamparado ...”

2. Também em relação ao hebraico, uma análise mais profunda não vai ajudar especifica-mente a esclarecer a questão. Dei uma olhada inclusive em outras opções de tradução, tanto em português quanto em outras línguas, e na verdade não há muito o que variar. O fraseado é este mesmo.

3. Ao tomar o verso de um jeito isolado e literal, então parece uma afirmação categórica de uma garantia quanto à velhice e à descendência do justo. Com certeza aqui reside o maior problema: tomar o texto isolado e literal – isso sempre atrapalha mais que ajuda. Então vamos contextualizar e aprender.

4. O Salmo 37 é um texto poético (no caso um poema alfabético). E como poesia deve ser lido e entendido. Ora, não se faz poesia como documento de afirmação doutrinária ou dogmática. Isso mataria o espírito da arte. Poesia é feita para cantar e dar vasão à alma e à fé. E é isso mesmo que Davi faz aqui.

5. Bem, estabelecido este padrão literário, cheguemos às águas mais profundas. O que Davi quis dizer? Que lições espirituais ele salmodia?

6. Antes, um passeio na própria Bíblia. Se for verdade que o justo nunca fica desamparado e que sua descendência nunca passa necessidade, então temos problemas com outras citações. A começar pela parábola do Rico e Lázaro (em Lc 16:19-31). É certo que aqui é só uma parábola e que nem o próprio texto se refere ao mendigo como justo.

7. Vamos mais. E o caso de Jó, ele sofreu um bocado! Apesar de ser reputado como justo! (ênfase no “apesar”). Mas seu fim foi de restauração. Seria aqui já uma pista?

8. Voltando ao NT. João Batista e Estêvão são figuras ímpares e cada um teve uma morte de mártir (confira Mt 14:10-11 e At 7:59-60). Penso que aqui temos exemplo e padrão.

9. E para não embolar mais a questão, é necessário citar outra passagem. Hb 11 fala de homens dos quais o mundo não era digno (verso 38), mas que não chegaram a obter a concretização da promessa.

10. Deixando os exemplos – eles parecem enfatizar que desamparo, abandono e sofrimento nunca é algo estranho ao servo fiel. Vamos ao questionamento: se sou justo e Deus é bom, por que sofro? Esse foi exatamente o que Pedro tentou responder na sua primeira carta. A sugestão que ele oferece é o reconhecimento que aqui somos provados para que nossa fé seja refinada como ouro que passa pelo fogo para sair de lá mais purificado (1Pe 1:6-7 – leia também 4:12-19).

Bem, não sei se está ajudando ou atrapalhando toda essa conversa! Então vou mudar a tática. Acabei de citar Pedro que diz para não estranharmos as dificuldades (em 1Pe 4:12). Então essa história de crente fiel – e missionário no campo – sofrendo não é novidade. Apesar das palavras do Salmo 37, há, de verdade, missionários que foram fieis toda uma vida e por fim são esquecidos por suas igrejas e juntas missionarias.
E aqui não quero nem debulhar a responsabilidade (ou falta de) de quem envia e não cuida! Eles vão dá conta diante do Deus da missão. Com certeza.
Mas, como equacionar esta dura realidade com as palavras sagradas?
Acho que o ponto do abandono já está bem esclarecido, vamos seguir colocando o texto no contexto e compreender a Revelação.
No Salmo, Davi expressa sua fé de maneira genérica, não pontual ou factual. Davi crê que o fim dos ímpios é murcharem como a erva do campo e que ao justo Deus destina sempre um cuidado especial. Esse sim é o direcionamento de nossa confiança e esperança no Senhor.
O fato de haver crente fiel que sofre não invalida a verdade que temos um Deus provedor e sustentador. Como a verdade bíblica de que Deus perdoa pecados não exclui a dura realidade de que vivemos nesta vida sujeitos a toda espécie de intempéries.
Nosso Deus é fiel e completamente revestido de amor leal e nunca abandona seus filhos. Independente do desdobramento histórico que aconteça. Lembre: Pedro e Tiago foram perseguidos a mando de Herodes, um morreu ao fio da espada e outro foi visitado pelo anjo e liberto (leia em At 12:1-8).
Por isso cantamos: “Se Deus fizer, ele é Deus. Se não fizer, continua sendo Deus”. E é verdade!
O que Davi canta no Salmo é a certeza de nunca colocar seu olhar, nem sua fé e esperança nas circunstâncias pois todas elas são passageiras, mas confiar exclusivamente num Deus que é capaz de mostrar seu carinho e atenção aos seus servos de maneira perene (considere 2Co 5:5-8).
E tem mais. O próprio Paulo assevera que as aflições do tempo presente em nada podem assemelhar ao que nos está reservado (em Rm 8:18). Se eu nunca abandonar esta firmeza, Deus vai me fazer voar por sobre as circunstâncias (a oração de Habacuque também é poética em Hc 3:17-19).
Para terminar, não poderia deixar de citar Apocalipse. Quando da abertura do quinto selo (em Ap 6:9-11), os que haviam sido mortos pelo testemunho clamaram: “Até quando?” E lhes foi dito que esperassem apenas um pouco mais até que Deus completasse sua ação de purgação histórica e trouxesse tudo para o seu devido lugar. A esperança deve está baseada nas promessas e não na realidade.
É verdade. O crente sofre – isso é a história acontecendo diante de nossos olhos – mas isso não invalida a declaração bíblica. Ignorar essa realidade baseada numa fé ingênua, tirada de uma frase fora de contexto não ajuda em nada a amadurecer a minha fé, nem a vencer as circunstâncias. Só me faz revoltado e frustrado.
O que o Salmo diz, e aqui em consonância com todo o ensinamento bíblico e cristão, é que devo confiar, como Davi, que o fim já está estabelecido por aquele que tem a história em suas mãos e vai destinar os ímpios arrogantes ao fogo e dará justa retribuição aos seus amados. Isso sim, faz com que não desista na missão – isso é fé genuína!
Por isso:

Confie no Senhor e faça o bem;
assim você habitará na terra
e desfrutará segurança.
Deleite-se no Senhor
e ele atenderá aos desejos do
se coração.
Entregue o seu caminho ao Senhor
confie nele, e ele agirá (Sl 37:3-5).



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